Texto de Ana Lucia Silva
Apenas mais um filme, uma mulher revolucionária, a frente do seu tempo, cujo ideal de uma Alemanha livre é o que governa e dirige seu destino. O seu e de seus companheiros do movimento revolucionário Rosa Branca, incluindo seu irmão.
Se filme de arte significa a ausência de clichês, de lugares comuns, se significa a proporção de sensações desagradáveis que indignem e levem a reflexão de quem assiste, então, Uma Mulher Contra Hitler não é um filme de arte.
No filme há música triste que nos leva a um sentimento de pena, de dor, o momento de chorar, os incontáveis olhares para o céu em busca de algo melhor e que predestina o final da história de Sophie, a extrema fraternidade com que é tratado Christoph Probst, preso e tão culpado quanto, mas que tem dois filhos e por isso merece e precisa viver mais, o estereótipo da mulher como sexo frágil que luta contra isso não abandonando seu ideal por uma saída mais fácil, enfim todos os elementos que compõe um verdadeiro drama que pretende agradar e que cai na velha fórmula “um contra o sistema”.A arte talvez fique por conta de se poder contar, mais uma vez, essa história. História que por ser comum a todos, seu principal e, por muitas vezes único antagonista necessita sempre de Schindler, de Sophie Scholl, enfim de heróis que de alguma forma venceram e por isso hoje podemos saber deles e de seus atos pela arte.
Arte contemporânea comprometida, subestimada, temida e proibida por um sistema que negava tudo o que fosse considerado transgressor, tudo que diferenciasse, tudo que fizesse pensar e só aceitava uma arte clássica, a arte do belo e dos deuses para agradar a um deus idealizador de um mundo belo e perfeito.
No caminho para o cinema: preconceito, medo, risos e reflexões. Avenida Paulista, reduto da arte, do diferente, do trabalho e do espaço democrático que exclui, na tela do cinema: propaganda do estacionamento e do apartamento que me são estranhos. No meio do filme risadas, isso também acontece na reserva cultural, algum desavisado pode se sentir intimidado – não ri, não entendi a piada – não houve piada, mas um riso seguido de outro atrasado ou imitado. Na saída um café, discussão e uma garoa. Trianon-Masp e uma família, eles não foram ao cinema e eles não tem o bilhete para passar, filhos pequenos, eles não sabem onde fica a Alemanha, eles não sabem da guerra de 1945 eles sabem da guerra de hoje, da violência de hoje, das dificuldades de hoje.
A arte para eles é a da sobrevivência. A arte que serviria para eles abrirem seus pensamentos para o mundo, para enxergarem o mundo, para se defenderem do mundo, eles não tem acesso, eles não conhecem.
“Se ele não temesse nossa opinião, não estaríamos aqui.”
A frase dita pela personagem principal do filme nunca foi tão atual. Se eles não temessem a nossa opinião, a minha, a sua, a da mãe dos cinco filhos pedindo um bilhete de metrô na estação Trianon-Masp – o menino que entrou vendendo bala Halls Cream R$1,00 – e as meninas alternativas entregando panfletos de um espetáculo teatral, todos nós teríamos direito e condições de acesso a toda produção artística, aquela que incomoda, aquela que substitui preconceitos, aquela que não deixa cercear-se pela ditadura global das empresas Globo, aquela que não empobrece, mas acrescenta, que não aliena e sim que representa a realidade de uma sociedade onde todos tem espaço e podem se ver, não só por aqui mas para sempre.
Na Alemanha Hitler usavam da repreensão para brecar qualquer atividade artística que pusesse a prova sua ideologia e ameaçasse seu regime – vários momentos do filme demonstram a alienação dos alemães em relação às atrocidades cometidas pelos soldados da SS, os campos de concentração, as experiências laboratoriais enfim tudo o que hoje pela história e pela arte, conhecemos. No Brasil não existe mais repreensão, não existe mais ditadura, existe o uso indiscriminado da ignorância dos muitos para a exultação de poucos.
Poucos que sabem onde fica a Alemanha, que sabem de Auschwitz, não só por que leram, mas porque tem condições de viajar, fazer turismo, sabem falar alemão e frequentam a Reserva Cultural na Avenida Paulista, que estacionam seus carros e que compram apartamentos em construção. Não, eles não andam de metrô, nem viram a mãe com seus filhos e suas necessidades, o problema não é deles, assistem o documentário dos meninos sem infância, com armas e acham Fantástico.Memória, esquecimento, silêncio; um dia essas histórias serão contadas, muitas vezes contadas e não só pela nova estética que as pede, pela indústria que as compram, mas pela verdade que elas contêm e para evitar que “volte a acontecer”, história dessa gente sem rosto, sem fronteiras nem nomes. Sofia se encantou com a velocidade do metrô, mas sua mãe não comprou nenhuma bala.
***Nota da Redação: A Reserva Cultural é um espaço situado na Avenida Paulista para exibição de filmes.